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EDIÇÃO 11

E11 LETRAS 01 LITERATURA FANTÁSTICA E BULLYING: CONVÍVIO SOCIAL NOS FINAIS NOS FINAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL

Vanessa Rodrigues Rabelo¹

Mírian Lúcia Brandão Mendes²

 

 

RESUMO: Este trabalho tem como objetivo investigar como a Literatura Fantástica pode contribuir no combate ao bullying. Para tal, serão feitas pesquisas bibliográficas sobre o assunto além da elaboração de propostas de redação com a intenção de auxiliar o professor de Língua Portuguesa na prevenção do bullying. A definição de Literatura Fantástica será baseada nos textos de Tzvetan Todorov e Northrop Frye. Já a abordagem sobre os livros enquadrados nesse conteúdo literário explorara textos de J.K. Rowling, Katherine Paterson e Graciliano Ramos.

 

 

PALAVRAS- CHAVE: bullying, educação, Literatura Fantástica, Língua Portuguesa

 

 

INTRODUÇÃO

O bullying é um problema social frequente nas salas de aula brasileiras. Através da Literatura Fantástica, observa-se uma forma de diminuir tal questão. Neste trabalho, será abordada a relação existente entre esse conteúdo da literatura e a prática do bullying.

Segundo pesquisa recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2012), 20,8% dos estudantes brasileiros entrevistados afirmaram que praticaram bullying contra algum colega em pelo menos 30 dias antes da pesquisa ser realizada. Na mesma pesquisa, é dito que 7,2% dos alunos afirmam que sofreram bullying por parte dos outros estudantes.

Algo que é preciso enfatizar é que as propostas para a leitura em cada período letivo não devem ser resumidas à Literatura Fantástica. Esse tipo de literatura é o que pode apresentar mais eficácia para ajudar o combate ao bullying, mas deve ser demonstrada para o aluno juntamente com outros tipos na série em que ele está. Por exemplo, sugere-se a leitura de “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carol; para alunos da quinta série ou sexto ano, mas nesse período eles devem ler obras com conteúdo didático também, ou seja, que acrescentaram em seu conhecimento de cultura literária.

 

1. O QUE É A LITERATURA FANTÁSTICA

A Literatura Fantástica é uma variedade literária, na qual as obras são analisadas a partir do ponto de vista da fantasia. Segundo Tzvetan Todorov (1968, p.5),

A expressão “literatura fantástica” se refere a uma variedade da literatura ou, como se diz normalmente, a um gênero literário. O exame de obras literárias do ponto de vista de um gênero é uma empreitada muito particular.

 

Dentre as diversas classificações para essa variedade, será trabalhada uma obra uma que foi exposta por Northrop Frye (1957). Nela, há a classificação dos “modos de ficção”, que tratam as relações do herói com a natureza e os leitores. São cinco classificações:

  1. “O mito” – O herói é superior, de forma natural, tanto às leis da natureza quanto ao próprio
  2. “Lenda ou conto de fadas” – O herói é superior, quanto ao grau, em relação à natureza e ao
  3. “Mimético elevado” – O herói é superior, quanto ao grau, quanto ao leitor mas não em relação às leis da
  4. “Mimético baixo” – O herói está em igualdade com o leitor e as leis da
  5. “Ironia”- O herói é inferiorizado em comparação com o Segundo Todorov (1968, p.15):

Em um mundo que é o nosso, que conhecemos, sem diabos, sílfides, nem vampiros se produz um acontecimento impossível de explicar pelas leis desse mesmo mundo familiar. Que percebe o acontecimento deve optar por uma das duas soluções possíveis: ou se trata de uma ilusão dos sentidos, de um produto de imaginação, e as leis do mundo seguem sendo o que são, ou o acontecimento se produziu realmente, é parte integrante da realidade, e então esta realidade está regida por leis que desconhecemos.

Ele ainda diz que a Literatura Fantástica situa-se nessa incerteza. Um exemplo que pode caracterizar isso é o livro “A ponte para Terabítia”, de Katherin Peterson, uma vez que, durante o enredo, a personagem Leslie faz parecer que conhece um mundo diferente do habitual, no qual existem criaturas fantásticas. Jess, o outro personagem principal, em certos momentos fica em dúvida se realmente acontece algo sobrenatural, mas ao decorrer do livro, principalmente no final, é possível perceber que ele acreditava no mundo real, diferentemente de Leslie. Na Literatura Brasileira, há também outros exemplos como em “Antes do Baile Verde”, de Lygia Fagundes Telles, em o conto “A Caçada”. Nessas obras, analisando pela Literatura Fantástica, há uma fuga da realidade, pois o personagem principal se vê como o animal caçado, que é retratado em uma tapeçaria.

 

2.  UM POUCO SOBRE A HISTÓRIA DA LITERATURA FANTÁSTICA

Tanto em prosa quanto em verso, a Literatura Fantástica esteve presente desde o princípio da história da humanidade. Seja através de a “Ilíada” de

Homero, ou de “Alice no País das Maravilhas”, de C.S.Lewis. Passou por Willian Shakespeare, em “Sonho de uma noite de verão”, durante o Classicismo. Durante o Romantismo, há o aparecimento da temática do horror, com Álvares de Azevedo, em “Noite na taverna”; já com os modernistas, no cenário internacional, é escrito por Aldous Huxley a obra “Admirável mundo novo”, marcando a temática de ficção científica, e em âmbito nacional existia o antropofagismo cultural, representado na literatura fantástica, por Raul Bopp, em “Cobra Norato”. As Tendências Contemporâneas contribuíram ainda mais para o avanço da Literatura Fantástica.

No século VIII a.C, é atribuída a Homero, a obra “Ilíada”. É uma poesia épica, considerada o marco inicial da literatura ocidental. A temática trata de acontecimentos durante o último ano da Guerra de Troia. Pode ser considerada como Literatura Fantástica, pois o seu personagem principal, Aquiles, é filho de uma deusa com um humano. Considerando a religiosidade da época, era algo verossímil, mas se olharmos com uma visão atual, essa obra foi marcante para a construção da Literatura Fantástica nas épocas posteriores. O texto torna-se “mimético elevado”, pois Aquiles é superior em grau em relação ao leitor, mas não a natureza, quanto ao grau.

O Classicismo retoma as manifestações artísticas da antiguidade. Durante meados dos anos de 1500, Willian Shakespeare escreve “Sonho de uma noite de verão”, em formato de peça teatral, na qual há a presença de elfos, fadas e espíritos. Considerando o enredo, é possível analisá-lo através da Literatura Fantástica.

Já durante o Romantismo, há o surgimento da temática do horror, dentro da Literatura Fantástica. O expoente na Literatura Brasileira é o livro “Noite na Taverna”, de Álvares de Azevedo. Muito influenciado por Lord Byron, a obra retrata temáticas como a morte e o sobrenatural.

Huxley, em “Admirável mundo novo”, prevê a existência de um mundo moderno tecnicamente. Considerando que foi escrito em 1932, o que o autor descreve, mesmo já sendo possível de se fazer atualmente, foi importantíssimo para atemática de ficção científica. No livro, o futuro em que vivemos é descrito em diversas partes. Já no Modernismo Brasileiro, o autor Raul Bopp é expoente no antropofagismo cultural. Em “Cobra Norato”, o personagem principal passa por uma aventura no interior do Brasil, onde encontra seres como a Iara e o Boiúna, seres encantados do folclore nacional.

Em tempos de pós-modernidade e tendências contemporâneas, algumas obras do século XIX e XX foram redescobertas pelos jovens, principalmente com ajuda das adaptações cinematográficas. É o caso da trilogia de “O Senhor dos Anéis”, de J.R.Tolkein; os seis livros de “As Crônicas de Nárnia”, de C.S.Lewis;“Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carol; e “Drácula”, de BramStoker. Esses autores e suas obras influenciaram outros de nossa época. J.K.Rowling, autora da saga de livros mais vendida no mundo, “Harry Potter, diz que foi fortemente influenciada pela obra de C.SLwis. É perceptível alusões a “Alice no país das maravilhas” em diversas produções e “Drácula” foi o expoente na literatura vampiresca.

 

  1. O BULLYING

O bullying, segundo Fante (2005), é toda e qualquer forma de agressão moral e/ou física praticada dentro das escolas. Cleo Fante (2005) apud Frederico Antônio de Araújo (2009, p.36) aponta duas causas para que ocorra o bullying, a saber:

  1. a necessidade que tem o agressor de reproduzir os maus-tratos sofridos tanto dentro de casa quanto na escola;
  2. ausência de modelos educativos humanistas, capazes de orienta e estimular o comportamento da criança para uma convivência social pacífica.”

Nos dias atuais, a mídia deixa enfatizado esse problema que vem se realçando com a entrada do século XX e as tendências pós-modernistas e contemporâneas. De fato, o bullying, mais praticado em outros países, vem se tornando um sério problema social no Brasil. Mas, analisando de forma crítica o que é dito por Fante (2005), percebemos que se a família não cumpre de forma efetiva o seu papel, a escola deve intervir é fornecer ao aluno a base que falta.

Considerando que a falta de exemplo é uma das causas desse problema social, e a outra a vontade de exteriorizar o sofrimento interno, percebe-se que o bullying é um ciclo no qual uma vítima pode se tornar um agressor, mesmo essa vítima sendo provocada por outros tipos de agressões, até como a familiar.

Seja pela cor da pele, jeito do cabelo, peso, altura, personalidade e tantos outros motivos o bullying é uma violência que não deve alastrar-se. Esse é um dos grandes desafios da educação atualmente. Assim, cada educador deve pensar em maneiras de como acabar com esse problema.

Uma maneira possível para combater o bullying, pode ser através da Literatura Fantástica. Pois, uma das causas desse problema social é a falta de parâmetros a serem seguidos, o ideal do “herói” pode preencher essa lacuna. A “Ironia” pode servir de motivação para as vítimas, uma vez que mesmo sendo um herói, ele tem qualidades inferiores ao leitor. Diante do exposto, torna-se importante dirigir-se a atenção para as propostas focadas na perspectiva literária e no problema social que este trabalho apresenta. Elas podem ser de grande valia principalmente para as séries finais do ensino fundamental.

 

4.  RELAÇÃO ENTRE O BULLYING E A LITERATURA FANTÁSTICA

Para fazer uma abordagem da existência da relação entre o bullying e a Literatura Fantástica, é necessário mencionar alguns autores que pesquisaram sobre o assunto. Segundo Medeiros (2009, p.8):

A história “A Gata Borralheira”, assim como os demais contos presentes na literatura, permite uma discussão mais aprofundada sobre os conflitos humanos, ao privilegiar aspectos problemáticos que dão ao leitor a possibilidade de refletir sobre a temática implicitamente discutida. Isto nos mostra claramente a importância do trabalho com os contos de fadas junto às crianças, isso porque, embora a história tenha sido escrita há muitos anos, continua sendo atual e significativa.

 

Percebe-se como a Literatura Fantástica aborda questões sociais, no caso o bullying, e permite que o leitor faça uma crítica sobre o assunto. É dito, ainda, pela mesma autora:

Não foi intenção dos irmãos Grimm escreverem um conto que permitisse uma reflexão sobre o bullying, afinal, este é um problema que só hoje ganhou o reconhecimento como desvio de comportamento (na verdade o problema já existia tanto é que existe o conto), mas a riqueza do enredo, da sua linguagem oferece condições para que o conto seja analisado sobre esta ótica e permita um crescimento e amadurecimento do leitor, na medida em que o desequilibra e o faz refletir sobre sua própria vida. (MEDEIROS, 2009, p.8)

 

E é justamente o enredo da Literatura Fantástica que nos permite uma análise mais profunda da condição humana, o que proporciona uma reflexão da realidade, no caso, a própria vida do leitor. Para finalizar, Medeiros (2009, p.8) ressalta a importância das metáforas dos textos da Literatura Fantástica:

É este caráter realista que fundamenta a literatura, que oferece ao leitor a possibilidade de fazer inter-relações com a sua vida, a partir das metáforas presentes no texto. Permitindo ao leitor, que sofre bullying ou que são testemunhas do fenômeno, além da identificação com a personagem, vislumbrarem a esperança de mudança da situação, assim como fez a menina da história.

 

As metáforas presentes nos textos de Literatura Fantástica são capazes de serem absorvidos pelos alunos. Assim, o bullying pode ser observado e o aluno compreende os malefícios desse ato. Logo, nessa interpretação é que ocorre a conscientização sobre o problema.

 

5.  O COMBATE AO BULLYING: NO QUINTO OU SEXTO ANO

Nessa fase escolar, os alunos têm em média de 10 a 12 anos de idade. Passam pelo período do fim da infância e início da adolescência. Então, é muito importante termos cuidado para não deixar o estudo da Literatura nem muito infantil e nem pouco excessivamente adulto. Sugere-se que o ideal do herói possa ser trabalhado nessa fase, sendo colocado como um exemplo para o estudante.

A sugestão literária nessa fase são os livros: “As Crônicas de Nárnia: o Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa”, de C.S.Lewis; e “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carol.

Na primeira obra, o ideal do herói pode ser abordado a partir do personagem Aslan, o Leão. Independentemente da situação pela qual os quatro escolhidos para governarem Nárnia passam, Aslan sempre será leal e ensinará a eles lições como dignidade e lealdade. Em contraposição, existe o personagem Edmundo, que por uma simples refeição entrega sem maldade os seus irmãos a rainha malvada. A partir da leitura do livro, os alunos podem fazer trabalhos como encenações, desenhos, feiras literárias, entre outras atividades. É interessante o professor dedicar um tempo à contação do livro para os alunos. Com essa atitude, a lacuna do exemplo possa ser diminuída para os que necessitam dela.

Em “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carol, o que poderá ser abordado são os conflitos com os quais os alunos passam ao deixar a infância e iniciar a adolescência. O professor poderá abordar o livro como uma grande metáfora e ajudar, assim, na formação do educando.

 

5.1  SEXTA SÉRIE OU SÉTIMO ANO

Alunos, com cerca de 11 a 13 anos, estão no início da adolescência. Nessa fase, a Literatura Fantástica mais clássica é também a mais importante para a formação educacional e de conteúdo dos alunos. “Sonho de uma noite de verão”, de Willian Shakespeare; e “a Odisseia”, de Homero, são as obras sugeridas para essa etapa.

Em a “Odisseia”, a sabedoria astuta de Odisseu pode ser usada como exemplo para os alunos. Além disso, essa é a introdução para uma literatura mais clássica. Provavelmente, os estudantes podem ter dificuldades para interpretar o poema, porém, existem versões em prosa, de autores atuais, que podem servir de auxílio para o professor. Um ponto interessante ao trabalhar essa obra é a possibilidade de transformá-la em teatro. Essa interação de todos os alunos da sala, mesmo que divididos em grupos com tarefas diferentes, para fazerem o mesmo trabalho ajuda no convívio em sociedade, reforçando o respeito às diferenças.

Nesse mesmo ritmo teatral, “Sonho de uma noite de verão”, já escrito para atuar, também pode ser abordado da mesma forma. Nele, não há o ideal do herói, mas o trabalho em grupo como já mencionado, ajuda no combate ao bullying.

 

5.2  SÉTIMA SERIE OU OITAVO ANO

Frequentada por alunos entre 12 e 14 anos, a sugestão é o estudo de “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes; e “Ponte para Terabítia”, de Katherin Peterson. No primeiro, será trabalhada a ideia do herói como ironia, pois o personagem é um herói, mas possui características até inferiores ao leitor. É recomendável utilizar a obra, também, como introdução a literatura clássica. Já “Ponte para Terabítia” trabalha enfaticamente questões como o bullying e os valores que um cidadão deve ter. A forma para utilizar essas obras com os alunos pode ser por meio de textos, mais precisamente redações, com o foco na produção do estudante.

 

5.3  OITAVA SÉRIE OU NONO ANO

Os alunos, já com 13 a 15 anos de idade, estão na adolescência concisa. Assim, o importante é trabalhar temas com os quais eles estão integrados. O bullying, obviamente é um deles. Nesse período escolar, a proposta dos livros desse gênero literal: “Harry Potter e a Ordem da Fênix”, de J.K.Rowlling; e “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley é adequada.

O primeiro livro, caso não seja possível à leitura dele por completo, pode-se trabalhar o capítulo 28, “A pior lembrança de Snape”. Ao lê-lo, o adolescente irá encontrar o assunto social já mencionado: o bullying. Essas lembranças referidas no título foram agressões morais sofridas pelo personagem Snape durante sua vida escolar. E a prática de tal violência é creditada ao pai de

Harry Potter, James Potter. Um trecho interessante ao final do capítulo é o que segue: “O que estava deixando Harry tão aterrorizado e infeliz não era ter sido enxotado ou as jarras que Snape tinha arremessado contra ele; era que sabia como era ser humilhado em meio a uma multidão de curiosos, sabia exatamente como Snape tinha se sentido quando seu pai insultou-o e, julgando pelo que acabara de ver, seu pai era tão arrogante quanto Snape sempre dissera que era.” Isso pode ser passado ao aluno como o ciclo vicioso que o bullying causa. Vítima e causador podem ser a mesma pessoa e alguém querido pelo aluno que provoca pode ser vítima de alguém e vice-versa. Fazer proposta de redações com esse tema e exemplo literal para os alunos é muito importante na conscientização de quão grande é o problema que atinge muitos estudantes.

Em “Admirável mundo novo”, mesmo com um olhar de Literatura Fantástica, o que será abordado são os conflitos do homem moderno, pois para a época o autor da obra descreveu coisas inimagináveis, porém para nosso tempo atual muitas delas existem. Então, deve-se criar um aluno crítico que pense no impacto da tecnologia no cotidiano. Isso o preparará para os conflitos do mundo moderno. Trabalhar tal questão em forma de exposição de textos e imagens é muito interessante para a formação cultural do estudante.

 

6.  ALGUNS EXEMPLOS PRÁTICOS

Neste capítulo, estão as atividades que foram preparadas e algumas propostas para produção de texto. Elas demonstram como a Literatura Fantástica auxilia o combate ao bullying na prática.

 

6.1  COMENTÁRIO SOBRE A PRODUÇÃO DE TEXTO DA ATIVIDADE 1

ATIVIDADE 1 – A PONTE PARA TERABÍTIA

Leia o trecho a seguir:

Deus do céu, se a senhora Myers continuasse arreganhando aquele sorriso, daquele jeito, ia acabar rachando a cara ao meio.

— E se alguém não puder assistir ao programa?

— Diga a seus pais que é um dever, para nota. Eu tenho certeza de que eles vão deixar.

— E se…

A voz de Leslie falhou. Depois, ela sacudiu a cabeça para o lado, e deu um pigarro. As palavras saíram mais fortes do que nunca.

— E quem não tiver televisão em casa?

“Leslie, Leslie, não diga isso. Você pode assistir na minha”. Mas já era tarde demais para salvá-la. As exclamações de descrença já não estavam mais sendo sussurradas, porém se erguiam bem alto, como uma muralha, um paredão barulhento de desprezo.

A senhora Myers apertou os olhos e piscou.

— Bom, nesse caso… — ela hesitou, piscando cada vez mais, dava para ver que estava pensando num jeito de salvar Leslie. — Nesse caso, a pessoa pode escrever uma redação de uma página sobre algum outro assunto. Não pode, Leslie?

A professora tentava sorrir para Leslie, por cima do tumulto que se formou na turma, mas não adiantava.

PATERSON, Katherine. Ponte para Terabítia. São Paulo: Salamandra, 1999.

Escreva um texto demonstrando como respeitar os colegas de classe e ajudá-los em situações como a do trecho lido.

 

 

FIGURA 1

 

 

A atividade demonstrada na atividade 1 traz um trecho do livro “Ponte para Terabítia”, da autora Katherine Paterson. Na referida obra datada de 1999, a personagem principal, Leslie, cria um universo imaginário, no qual ocorrem situações impossíveis em nossa realidade. Por esse motivo, ela não possui muitos amigos na escola. O bullying ocorre quando ela não pode realizar uma tarefa escolar porque não possui televisão, já que os pais da garota eram escritores e preferiam que Leslie utilizasse a imaginação, ao invés de somente receber informações. Assim, os outros alunos riem da menina.

Levando em conta o texto trabalhado, propoem-se que os discentes elaborem uma produção textual onde deverão relatar maneiras viáveis de propagar o respeito às diferenças e de como podemos como podemos ajudar os colegas quando o bullying ocorre.

Esse é um exemplo, através de uma proposta de produção de texto, que pode ser trabalhada em sala de aula. Nele, há a união da Literatura Fantástica no combate ao bullying, uma vez que a personagem principal elabora ideias caracterizadas pela Literatura Fantástica, como ações impossíveis em nossa realidade, e um ato de bullying contra ela.

 

6.2  COMENTÁRIO SOBRE A PRODUÇÃO DE TEXTO DA ATIVIDADE 2

ATIVIDADE 2 – HARRY POTTER

Leia o trecho:

O que estava deixando Harry tão aterrorizado e infeliz não era ter sido enxotado ou as jarras que Snape tinha arremessado contra ele; era que sabia como era ser humilhado em meio a uma multidão de curiosos, sabia exatamente como Snape tinha se sentido quando seu pai o insultou e, julgando pelo que acabara de ver, seu pai era tão arrogante quanto Snape sempre dissera que era.

ROWLING, J.K. Harry Potter e a Ordem da Fênix. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.

Escreva uma dissertação argumentativa demonstrando maneiras de como combater o ciclo vicioso do bullying.

 

 

E11 LETRA01_Figura2

 

 

Na atividade 2, há também outra atividade possível de ser realizada. Harry Potter é um dos textos contemporâneos sobre Literatura Fantástica mais famosos. Harry é um garoto comum e órfão que mora com os tios, mas sofre maus-tratos por parte dos parentes. A vida dele começa a mudar quando descobre que é um bruxo e que deveria ir a uma escola mágica.

Ao decorrer dos livros da série, Harry sofre bullying por ter sobrevivido a um ataque de um dos bruxos mais poderosos do universo em que ocorre o enredo. Em “Harry Potter e a ordem da fênix” (2003), o garoto consegue ver as lembranças do professor Snape. Através delas, percebe que o professor também sofreu bullying. O causador de tal problema era o próprio pai de Harry. Assim, ele tem sentimento de compreensão com o professor, pois sofria também com o bullying.

Logo, a proposta de produção textual está voltada para como os alunos pensam que é possível acabar com o bullying. Uma vez que   esse problema pode tornar-se um ciclo no qual, mais de uma geração pode passar por ele. Também, quem um dia provocou o bullying pode sofrer com isso.

 

6.3  COMENTÁRIO SOBRE A PRODUÇÃO DE TEXTO DA ATIVIDADE 3

ATIVIDADE 3 – A TERRA DOS MENINOS PELADOS

Leia o trecho abaixo:

Havia um menino diferente dos outros meninos. Tinha o olho direito preto, o esquerdo azul e a cabeça pelada. Os vizinhos mangavam dele e gritavam:

— Ó pelado!

Tanto gritaram que ele se acostumou, achou o apelido certo, deu para se assinar a carvão, nas paredes: Dr. Raimundo Pelado. Era de bom gênio e não se zangava; mas os garotos dos arredores fugiam ao vê-lo, escondiam-se por detrás das árvores da rua, mudavam a voz e perguntavam que fim tinham levado os cabelos dele. Raimundo entristecia e fechava o olho direito. Quando o aperreavam demais, aborrecia-se, fechava o olho esquerdo. E a cara ficava toda escura.

Não tendo com quem entender-se, Raimundo Pelado falava só, e os outros pensavam que ele estava malucando.

Estava nada! Conversava sozinho e desenhava na calçada coisas maravilhosas do país de Tatipirun, onde não há cabelos e as pessoas têm um olho preto e outro azul.

RAMOS, Graciliano. A terra dos meninos pelados. Rio de Janeiro: Editora Record, 2014.

Provavelmente, você e seus colegas de classe possuem muitas diferenças. De diversas maneiras, somos diferentes uns dos outros. Redija um texto explicando como podemos respeitar as diferenças das outras pessoas. Escreva, também, um fim para a história acima.

Na atividade 3, para trabalhar o combate ao bullying através da Literatura Fantástica, sugere-se a utilização do texto “A terra dos meninos pelados” (2014), de Graciliano Ramos, pois na obra Raimundo é um menino diferente dos outros. Ele possui um olho azul e o outro preto, além de ter a cabeça pelada. Como o garoto sofre discriminação por parte dos outros meninos, ele cria um universo só próprio, o país do Tatipirun. Nesse lugar, todos são iguais ao Raimundo.

A proposta de redação para os discentes consiste em escreverem um texto argumentando sobre como respeitar as diferenças dos outros colegas de classe. Também, procura estimular a criatividade deles, porque pede que seja feito um final para a história de Graciliano Ramos.

 

7-  CONCLUSÃO

Percebe-se que o bullying é uma realidade das escolas brasileiras. Muitos alunos admitem ter sofrido o ato e/ou ter praticado também. Entretanto, para que o problema não se alastre, pesquisas e propostas de soluções devem ser apresentadas.

Neste trabalho, foram mostradas evidências de como a proposta de redação com o tema do bullying pode ser utilizada para combatê-lo. Além disso, a Literatura Fantástica foi o foco textual no material de apoio aos textos a serem produzidos. Como já exposto, vários motivos podem ser causadores do bullying, dentre eles a falta de uma pessoa como referencial e exemplo. A partir disso, foram feitas pesquisas de vertentes literárias que podem colaborar para a reflexão e combate ao bullying. Através de Tzvetan Todorov e Northon Frey, percebeu-se como a Literatura Fantástica é repleta de personagens que demonstram virtudes a serem seguidas.

Com esta pesquisa, conclui-se que a Literatura Fantástica pode ser uma excelente aliada para o entendimento e combate do bullying, antes que se alastre ainda mais pelas escolas brasileiras. Espera-se, com este trabalho, que outros pesquisadores enveredem pelo mesmo caminho de pesquisa e produzam material que possa ser utilizado nas nossas escolas.

 

8-  REFERÊNCIAS

 

ARAÚJO, Frederico Antônio de. Bullying: uma abordagem teórica dessa construção social / Frederico Antônio de Araújo – 2009. Disponível em<http://www.proped.pro.br/teses/teses_pdf/2006_2-94-ME.pdf>. Acesso em: 19 ago. 2014

AZEVEDO, Álvares de. Noite na taverna. Macário: texto integral. São Paulo: Martin Claret, 2008.

CARROLL,Lewis. As Aventuras de Alice no País das Maravilhas. Relógio d’Água, 2009.

FANTE, Cleo. Fenômeno Bullying. Como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. São Paulo: Versus, 2005.

HOMERO. Ilíada.- São Paulo: Martin Claret, 2004.

HUXLEY, Leonard Aldous. Regresso ao Admirável Mundo Novo. 245 p. Lisboa, Oficinas Gráficas de Livros do Brasil, 1958.

LEWIS, C. S. As Crônicas de Nárnia – Volume único, São Paulo: Martins Fontes, 2009

MEDEIROS, LÍvia Cristina Cortez Lula de. A PRESENÇA DO BULLYING NOS CONTOS DE FADAS: UMA ANÁLISE REFLEXIVA. 2009. Disponível em:<http://alb.com.br/arquivo-morto/edicoes_anteriores/anais17/txtcompletos/sem15/COLE_3753.pdf>. Acesso em: 20 out. 2014.

MIGUEL, Cervantes de. Dom Quixote de la Mancha. Tradução de Viscondes de Castilho e Azevedo. São Paulo: Nova Cultural, 2002.

NORTHROP FRYE, Herman. Anatomy of Criticism. New Jersey: Princeton U. Press, 1957

IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. PeNSE 2012. 2012. Disponível em:<http://saladeimprensa.ibge.gov.br/noticias?idnoticia=2405&view=noticia>. Acesso em: 17 out. 2014.

PATERSON, Katherine. Ponte para Terabítia. Salamandra, 1999

RAMOS, Graciliano. A terra dos meninos pelados. Rio de Janeiro: Editora Record, 2014.

ROWLING, J.K. Harry Potter e a ordem da fênix. Rio de Janeiro: Rocco, 2003

SHAKESPEARE, William. Sonho de uma Noite de Verão. Tradução: Bárbara Heliodora. Rio de Janeiro: Lacerda Ed., 2004.

TELLES, Lygia Fagundes. Antes do baile verde. Rio de Janeiro, Bloch, 1970.

TODOROV,     Tzvetan. Introdução     à     literatura     fantástica. São Paulo: Perspectiva, 1992

 

NOTAS DE FIM

 

1 Graduada do Curso de Letras do Centro Universitário Newton Paiva

² Doutoranda em Linguística pela Universidade Federal de Minas Gerais