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EDIÇÃO 11

E11 ODONT 02 TERAPIA FOTODINÂMICA ANTIMICROBIANA NA ENDODONTIA: REVISÃO DE LITERATURA

Rodrigo Rodrigues Amaral[1]

Déborah Menezes de Sá[2]

Ana Júlia Assunção da Cunha Menezes[3]

 

 

RESUMO: A terapia fotodinâmica antimicrobiana (aPDT) baseia-se na combinação de fotossensibilizador não tóxico sensível à luz seguida por irradiação com uma fonte de luz visível com adequado comprimento de onda na presença de oxigênio. O oxigênio encontrado no meio celular faz com que o fotossensibilizador ativado reaja com moléculas vizinhas por transferência de elétrons e dessa forma leva à produção de radicais livres (reação do tipo I) produzindo espécies reativas de oxigênio (ROS) e por transferência de energia ao oxigênio (reação do tipo II) resultando na formação do oxigênio singleto. A aPDT utilizada como coadjuvante pode aumentar a previsibilidade de sucesso do tratamento endodôntico porque tem a capacidade de eliminar patógenos presentes no interior do canal radicular e prevenir proliferação microbiana entre as sessões de tratamento. AaPDT é uma terapia promissora, não invasiva com um amplo espectro de ação e sem efeitos colaterais. Foram utilizadas para a presente revisão de literatura as bases de dados Pubmed, Lilacs, Scielo e Bireme. O objetivo desta revisão de literatura foi descrever o aumento da previsibilidade de sucesso no tratamento endodôntico convencional associado à terapia fotodinâmica.

 

PALAVRAS-CHAVE: Microrganismos. Terapia fotodinâmica. Tratamento endodôntico.

 

1 INTRODUÇÃO E OBJETIVO

O sucesso do tratamento endodôntico baseia-se na descontaminação eficaz do canal radicular, ao passo que os agentes microbianos promovem o desenvolvimento e manutenção do processo patológico que danificam a polpa e a região periapical (SILVA; PINHEIRO, 2012; ZANIN et al., 2003). A instrumentação mecânica associada à irrigação química não eliminam totalmente os microrganismos presentes no canal radicular (FIMPLE et al., 2008).

A infecção microbiana desempenha um papel importante no desenvolvimento de necrose na polpa dentária e da formação de lesões periapicais. Estudos têm mostrado que, em presença de uma cultura microbiológica negativa no canal radicular no momento da obturação, existe uma taxa estimada de sucesso de 94%, porém, quando a obturação é realizada em presença de uma cultura positiva, a taxa de sucesso é reduzida para 68% (SILVA et al., 2008).

O uso da medicação intracanal auxilia na eliminação de microrganismos presentes no sistema de canais radiculares (SCR), previne a proliferação microbiana entre as sessões de tratamento, além de reduzir os processos inflamatórios, minimizar algias e auxiliar no processo de reparação dos tecidos acometidos (ALMEIDA; GARCEZ SEGUNDO, 2007; MESQUITA et al., 2013; SILVA et al., 2010).

A terapia fotodinâmica antimicrobiana, conhecida como aPDT (acrônimo de antimicrobial photodynamic therapy) tem sido empregada em diferentes estudos na endodontia com a utilização de laser de baixa potência associado a um corante com características fotossensibilizadoras, como coadjuvante para eliminação de microrganismos persistentes ao preparo químico-mecânico (GARCEZ et al., 2008; SILVA; PINHEIRO, 2012; SABINO; RIBEIRO, 2012; ZANIN et al., 2003).

O tratamento baseia-se na interação de três fatores: uma fonte de luz de comprimento de onda específico, um fármaco fotoativável ou agente fotossensibilizador – tais como o azul de metileno (AM) e o azul de toluidina (AT) – e o oxigênio (CARVALHO et al., 2010; FIMPLE et al., 2008; SILVA; PINHEIRO, 2012; POLY et al., 2010). Quando o laser incide sobre a solução fotossensibilizante, gera uma transferência de energia entre a luz / fotossensibilizador e o substrato, originando o oxigênio singleto e radicais livres. Os mesmos atuam na parede celular bacteriana modificando seu metabolismo através da alteração de lipídios, proteínas e ácidos nucléicos, levando à morte bacteriana por apoptose (SILVA; PINHEIRO, 2012).

O presente trabalho de revisão de literatura teve como objetivo descrever a eficácia da aPDT como coadjuvante ao tratamento endodôntico convencional.

 

2 METODOLOGIA

Para realização do presente trabalho foram utilizados os seguintes descritores: microrganismos, terapia fotodinâmica, tratamento endodôntico; nas bases de dados do Pubmed, Lilacs, Scielo e Bireme.

 

3 REVISÃO DE LITERATURA

O insucesso da terapia endodôntica está relacionadoà presença de microrganismos persistentes que não foram eliminados durante o preparo químico-mecânico (PQM) ou pela medicação intracanal (ACKROYD et al., 2001; ALFENAS et al., 2011; OLIVEIRA et al., 2014). A eficácia da aPDT na eliminação de patógenos presentes no interior do SCR é promissora, visto que a maioria das espécies bacterianas orais não absorve luz visível. Portanto, é necessária a utilização de um fotossensibizador para ser absorvido pelas bactérias em sua parede celular com o objetivo de atrair a luz do laser e assim promover a morte microbiana por apoptose (FIMPLE et al., 2008; SABINO; RIBEIRO, 2012).

Segundo Machado (2000), a reação envolvida decorre primariamente da excitação dos elétrons do corante pela luz, seguida de dois mecanismos principais de reação a partir do seu estado excitado. Na reação do tipo I ocorre transferência de elétron entre o fotossensibilizador e componentes do sistema, gerando íons-radicais, que tendem a reagir com o oxigênio no estado fundamental, resultando em produtos oxidados. Na reação do tipo II, ocorre a transferência de energia do fotossensibilizador no estado tripleto, estado de menor energia, mas com tempo de duração mais longo, com a geração de oxigênio singleto, um agente altamente citotóxico. Nos dois mecanismos, o dano à célula-alvo é dependente da tensão de oxigênio e concentração do fotossensibilizador, porém é difícil verificar a diferença nos dois tipos de reações na aPDT. O importante na aPDT é a capacidade de excitar o fotossensibilizador em seu alvo e com mínimo de dano ao tecido circunvizinho. A reação do tipo II é considerada predominante no dano foto oxidativo às células microbianas (AMARAL et al., 2010). Não ocorre nenhum dano às células humanas (GEORGE; KISHEN, 2007).

A forma como a luz é utilizada no interior de canais radiculares durante irradiação no tratamento com a aPDT influencia a eficácia do resultado final. Quando utilizados sistemas de entrega de luz, como a fibra óptica difusora, a distribuição da luz no interior do canal é mais uniforme e intensa sobre área significativamente maior do que apenas com o uso da ponteira laser, aumentando a eficiência na desinfecção do sistema de canal radicular (SILVA et al., 2010).

A aPDT apresenta benefícios como a redução da resistência dos microrganismos, matando-os, não necessitando de manutenção química por períodos prolongados, mostrando assim resultados promissores durante o tratamento endodôntico. Possui uma técnica não invasiva e de baixo risco para o paciente. A terapia fotodinâmica aliada ao tratamento endodôntico convencional, mostra-se uma ferramenta útil na redução microbiana, por ter um amplo espectro de ação, a fim de proporcionar um tratamento de maior qualidade (ACKROYD et al., 2001; ALFENAS et al., 2011).

 

4 DISCUSSÃO

As pesquisas feitas in vitro por Fonseca et al. (2008), Foschi et al. (2007), Silva Garcez et al. (2006) e Soukos et al. (2006) avaliaram os efeitos da aPDT em canais radiculares humanos que foram contaminados com Enterococcus faecalis. Os canais foram sensibilizados por um fármaco foto ativável e irradiados por um laser de baixa potência. Os resultados obtidos foram significativos, variando de 77,5% a 99,9% em relação à redução microbiana no SCR. Garcez et al. (2008) e Fimple et al. (2008) também investigaram in vitro e in vivo a eficácia da aPDT em canais com infecção polimicrobiana e canais com necrose pulpar e lesão periapical respectivamente e os resultados foram superiores ao tratamento endodôntico convencional em concordância com outros trabalhos (FONSECA et al., 2008; FOSCHI et al., 2007; SILVA GARCEZ et al., 2006; SOUKOS et al., 2006).

Fonseca et al. (2008) avaliaram in vitro os efeitos da aPDT em canais radiculares humanos que estavam contaminados com Enterococcus faecalis. Estes canais foram sensibilizados com azul de toluidina por cinco minutos e irradiados com laser durante 20 segundos. Os resultados obtidos neste experimento revelaram uma redução microbiana de 99,9%.

Silva Garcez et al. (2006) investigaram in vitro canais infectados também por Enterococcus faecalis submetidos ao tratamento da aPDT e tratamento com solução de hipoclorito de sódio 0,5%, utilizando o fotossensibilizador, pasta base de azuleno e irradiados com laser. Obtiveram como resultado redução de 93,25% utilizando a solução química, e alcançou redução microbiana de 99,2%, resultado semelhante ao de Fonseca et al. (2008) após o uso da aPDT.

Foschi et al. (2007) investigaram os efeitos da aPDT em canais radiculares de dentes extraídos contaminados por Enterococcus faecalis. Os mesmos foram sensibilizados com azul de metileno por cinco minutos e irradiados por meio de fibra ótica com laser, alcançando uma redução microbiana de 77,5%.

Soukos et al. (2006), entretanto, avaliaram in vitro os efeitos da aPDT em dentes humanos extraídos e contaminados com biofilmes de Enterococcus faecalis, expostos ao azul de metileno pelos mesmos cinco minutos e irradiados por meio de fibra ótica com laser e alcançaram um resultado mais relevante, com 97% de eliminação microbiana.

Fimple et al. (2008), porém, avaliaram in vitro a resposta de infecção polimicrobiana em canais monorradiculares de dentes humanos submetidos à aPDT após sensibilização com azul de metileno por um tempo maior que em outros estudos, 10 minutos e duas exposições à luz de 2,5 minutos cada, tendo como resultado uma redução microbiana menor que os outros estudos citados acima, de 80%.

Garcez et al. (2008) investigaram os efeitos da aPDT em humanos que possuíam dentes com necrose pulpar e lesão periapical. Os canais foram preparados de forma convencional seguido da aplicação da aPDT no final da primeira sessão. Os canais foram preenchidos com pasta de hidróxido de cálcio e os pacientes retornaram após uma semana. Os resultados foram obtidos antes e depois da nova aplicação da aPDT, mostrando redução microbiana após o tratamento convencional, e aumento significativo desta redução microbiana quando utilizada a combinação com aPDT.

Almeida e Garcez Segundo (2007), por outro lado, estudaram a importância do peróxido de hidrogênio presente ou não na terapia fotodinâmica para a eficácia antimicrobiana. Grupo 1 – sem a presença do peróxido de hidrogênio. Grupo 2 – com solução de H2O2 e na sequência a aPDT. Grupo 3 – fotossensibilizador dissolvido H2O2. Os resultados obtidos pelo estudo foi que a aPDT tem sua eficácia aumentada, produzindo maior redução microbiana quando há associação com peróxido de hidrogênio.

Embora diversos estudos mostrem a eficácia do uso da aPDT em um tratamento endodôntico, percebe-se que ainda não foram padronizados protocolos que estabeleçam parâmetros de relação entre a luz, tempo de exposição e fotossensibilizadores.

 

5 CONCLUSÃO

Com base na presente revisão de literatura, concluímos que a terapia fotodinâmica antimicrobiana pode ser amplamente utilizada como tratamento coadjuvante ao tratamento endodôntico para a redução microbiana após o preparo químico-mecânico do sistema de canais radiculares ou entre sessões de tratamento com o objetivo de aumentar a previsibilidade de sucesso no tratamento endodôntico. Porém, verificou-se na literatura que não foram padronizados protocolos que estabeleçam parâmetros de relação entre a luz, tempo de exposição e fotossensibilizadores.

 

REFERÊNCIAS

ACKROYD, R. et al. The history of photodetection and photodynamic therapy. Photochemistry and Photobiology, v.74, n.5, p.656–669, 2001.

ALFENAS, C. F. et al. Terapia fotodinâmica na redução de microrganismos no sistema de canais radiculares. Revista Brasileira de Odontologia, v.68, n.1, p.68-71, jan./jun. 2011.

ALMEIDA J. C. S.; GARCEZ SEGUNDO A. S. Efeitos da terapia fotodinâmica associada a H2O2 em biofilme de bactérias gram+. Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares – IPEN, 2007. Disponível em: <http://pelicano.ipen.br/pibic/cd-virtual/2011%20-%20LAVOISIER /pdf/ipen_35_ resumo. pdf>. Acesso em: agosto 2015.

AMARAL, R. R. et al. Terapia fotodinâmica na endodontia; revisão de literatura. RFO UFP, Passo Fundo, v.15, n.2, p.207-211, maio/ago. 2010.

CARVALHO, V. F. et al. Terapia fotodinâmica em periodontia clínica. Revista Periodontia, v.20, n.3, p.7-12, set. 2010.

FIMPLE, J. L. et al. Photodynamic treatment of endodontic polymicrobial infection in vitro. J. Endod., v.34, n.6, p.728–734, Jun. 2008.

FONSECA, M. B. et al. Photodynamic therapy for root canals infected with Enterococcus faecalis. Photomed. Laser Surg., v.26, n.3, p.209-213, 2008.

FOSCHI, F. et al. Photodynamic inactivation of Enterococcus faecalis in dental root canals in vitro. Lasers Surg. Med., v.39, n.10, p.782-787, 2007.

GARCEZ, A. S. et al. Antimicrobial effects of photodynamic therapy on patients with necrotic pulps and periapical lesion. J. Endod., v.34, n.2, p.138-142, Feb. 2008.

GEORGE, S; KISHEN, A. Advanced noninvasive light-activated disinfection: assessment of cytotoxicity on fibroblast versus antimicrobial activity against Enterococcus faecalis.J. Endod., v.33, n.5, p.599-602, 2007.

MACHADO, A. E. H. Terapia fotodinâmica: princípios, potencial de aplicação e perspectivas. Química, v.23, n.2, p.237-243, Nov. 2000.

MESQUITA, K. S.et al. Terapia fotodinâmica: tratamento promissor na odontologia? Revista da Faculdade de Odontologia de Lins/Unimep, v.32, n.2, p.45-52, jul./dez. 2013

OLIVEIRA B, P.; AGUIAR, C. M.; CÂMARA, A. C. Photodynamic therapy in combating the causative microorganisms from endodontic infections. European Journal of Dentistry, v.8, n.3, p. 424-430, July/Sept. 2014.

POLY, A. et al. Efeito antimicrobiano dos lasers e terapia fotodinâmica contra Enterococcus faecalis no sistema de canais radiculares. Revista de Odontologia da UNESP, v.39, n.4, p. 233-239, jul./ago. 2010.

SABINO, C. P.; RIBEIRO, M. S. Uso de fibra óptica difusora em terapia fotodinâmica endodôntica. Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares – IPEN, 2012. Disponível em: <http://pelicano.ipen.br/pibic/cd-virtual/2012%20-%20JOHANNES%20GUTENBERG/pdf/ipen_04_resumo.pdf>. Acesso em: agosto 2015.

SILVA GARCEZ, A. et al. Efficiency of NaOCl and laser-assisted photosensitization on the reduction of Enterococcus faecalis in vitro. Oral Surg. Oral Med. Oral Pathol. Oral Radiol. Endod., v.102, n.4, p.e93-98, 2006.

SILVA, F. C. et al. Análise da efetividade da instrumentação associada à terapia fotodinâmica antimicrobiana e a medicação intracanal na eliminação de biofilmes de Enterococcus faecalis. Braz. Dent. Sci., v.13, n.5, p.31-38, jan./jun. 2010.

SILVA, J. N.; PINHEIRO, S. L. Avaliação da capacidade de redução microbiana da instrumentação manual associada com a terapia fotodinâmica em leões endodônticas de dentes decíduos. In: ENCONTRO DE INICIAÇÃO EM DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO E INOVAÇÃO, II. 25 e 26 de setembro de 2012. Anais… PUC Campinas: Campinas, set. 2012.

SOUKOS, N. S. et al. Photodynamic therapy for endodontic disinfection. J. Endod., v.32, n.10, p.979-984, 2006.

ZANIN, I. C. J. et al. Terapia fotodinâmica na odontologia (TFD). Laser RGO, v.51, n.3, p.179-182, jul./set. 2003.

 

NOTAS DE FIM 

 

[1] Professor orientador. Mestre e Especialista em Endodontia. Professor Adjunto e Coordenador da Pós-Graduação de Endodontia – Centro Universitário Newton Paiva

[2] Aluna da Graduação em Odontologia – Centro Universitário Newton Paiva

[3] Aluna da Graduação em Odontologia – Centro Universitário Newton Paiva