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EDIÇÃO 6

E6 NUT40-PROBIÓTICOS E A PERMEABILIDADE INTESTINAL

Márcio Leandro Ribeiro de Souza1

 

RESUMO:Os probióticos estão relacionados a inúmeros efeitos benéficos no organismo, entre eles a melhora da função de barreira intestinal. Os mecanismos que podem explicar essa interação estão sendo propostos. Entre eles, podemos citar o estímulo para aumento da produção de muco, de peptídeos antimicrobianos como defensinas e catelicidinas, e outras moléculas antimicrobianas como ácidos graxos de cadeia curta, bacteriocinas ou microcinas. Essas bactérias probióticas também competem com patógenos por sítios de ligação nas células epiteliais e na camada mucosa sobrejacente, além de diminuir alterações nas junções tight e aumentar a produção e liberação de IgA secretória. Assim, existem evidências sobre os benefícios decorrentes do uso dos probióticos para melhoria da função de barreira intestinal e controle da permeabilidade intestinal e este estudo pretende abordar os mecanismos pelos quais as bactérias probióticas contribuem para o controle dessa permeabilidade. 

Palavras-chave: Probióticos. Permeabilidade. Mucosa intestinal.

 

 

INTRODUÇÃO

 O intestino humano representa a parte final do tubo digestório e é dividido em intestino delgado e grosso. O intestino delgado é responsável por completar a digestão e absorção da maioria dos nutrientes, enquanto o intestino grosso é responsável pela absorção da maior parte de água e alguns eletrólitos, o que fornece consistência firme às fezes (SHILS et al., 2002). O intestino delgado contém aproximadamente 7 metros de comprimento, variando entre 5 e 8 metros, e o intestino grosso tem aproximadamente 1,5 metro (NETTER, 2011).

O trato gastrointestinal (TGI) contém um epitélio contínuo que apresenta diferentes propriedades em relação às substâncias presentes na luz intestinal, promovendo a função de transporte das mesmas bem como a função de barreira. O termo permeabilidade intestinal se refere a essa função de barreira, capaz de permitir ou não a passagem de moléculas por mecanismos de difusão não mediada, por diferenças de gradiente de concentração ou pressão, sem a assistência de um sistema carreador bioquímico passivo ou ativo (TRAVIS; MENZIES, 1992). Além disso o TGI contribui para a saúde garantindo a digestão e absorção adequada de nutrientes, minerais e fluidos, induzindo a tolerância da mucosa e sistêmica, defendendo o hospedeiro de infecções e outros patógenos, e enviando sinais da periferia para o cérebro, conforme esquematização na Figura 1. Assim a barreira intestinal contribui para prevenção de desnutrição, alergias e infecções no hospedeiro (BISCHOFF, 2011).

  

 Figura 1: O impacto do intestino na saúde

Fonte: Adaptado de Bischoff, 2011.

 

 Os probióticos são microrganismos vivos, administrados em quantidades adequadas, que conferem benefícios à saúde do hospedeiro. Os probióticos atualmente estão relacionados a inúmeros efeitos no organismo, como função hipocolesterolêmica, tropismo na mucosa intestinal, efeito anticarcinogênico, tratamento e prevenção da diarreia, melhoria da digestão da lactose (WHO, 2002; SANDERS, 2003).

 Os probióticos podem interferir diretamente na barreira intestinal, podendo ou não prejudicar a permeabilidade intestinal. Diversos mecanismos vêm sendo propostos para explicar essa possível interação, como estímulo para aumento da produção de muco, de pepitídeos antimicrobianos como defensinas e catelicidinas, e outras moléculas antimicrobianas como ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) e bacteriocinas ou microcinas. Essas bactérias probióticas também podem contribuir para a função de barreira intestinal competindo com patógenos por sítios de ligação nas células epiteliais e na camada mucosa sobrejacente, além de diminuir alterações nas junções tight e aumentar a produção e liberação de IgA secretória (COLLINS; BERCIK, 2009; BARTON; KAGAN, 2009; RESTA-LENERT; BARRETT, 2006; MUMY et al., 2008; MADSEN et al., 2001; EWASCHUK et al., 2008; GALDEANO; PERDIGON, 2006).

  Assim, o presente trabalho pretende descrever as funções dos probióticos na saúde humana, bem como os principais mecanismos envolvidos na interação entre os microrganismos probióticos e a barreira intestinal, e suas interferências na permeabilidade intestinal.

 

METODOLOGIA

O presente estudo é uma revisão bibliográfica, realizada no período de abril a maio de 2012, com consulta às bases de dados LILACS, MEDLINE e SciELO. Utilizou-se como critério de busca o formulário básico com os seguintes descritores: microbiota intestinal, probióticos, permeabilidade intestinal. Foram selecionadas pesquisas em português, inglês e espanhol, prevalecendo publicações dos últimos 10 anos (2002 a 2012). Algumas publicações anteriores a 2002 foram utilizadas quando estas representavam estudos clássicos sobre os temas.

 

O INTESTINO

  O intestino humano representa a parte final do tubo digestório e é dividido em intestino delgado e grosso. Juntas, essas duas porções podem atingir aproximadamente 9 metros de comprimento (SHILS et al., 2002; NETTER, 2011).

  O termo “intestino saudável” vem sofrendo alterações pela comunidade científica desde a definição de saúde como ausência de doenças pela OMS em 1948 até a conceituação mais aceita atualmente. Hoje em dia, existem cinco critérios que precisam ser preenchidos pelo indivíduo para que se possa confirmar o diagnóstico de intestino saudável, conforme descrito na Tabela 1 (BISCHOFF, 2011).

 

Tabela 1: Saúde intestinal e saúde gastrointestinal

Legenda: TGI, trato gastrointestinal; IgA, imunoglobulina A; Qi, ideograma chinês.

Fonte: Adaptado de Bischoff, 2011.

 

 Entre os cinco critérios para classificação de um “intestino saudável” percebe-se a importância da manutenção da integridade da barreira intestinal, bem como da composição normal da microbiota (BISCHOFF, 2011). O intestino humano contém uma abundante flora, aproximadamente 100 trilhões de células bacterianas, que fornecem uma média de 600.000 genes a cada ser humano, localizadas fundamentalmente no cólon e que abrangem centenas de espécies de bactérias. Existe uma alta diversidade microbiana interindividual de espécies e de cepas, ou seja, cada indivíduo abriga seu próprio padrão de composição bacteriana, determinado em parte pelo genótipo do hospedeiro e pela colonização inicial no nascimento via transmissão vertical (WGO, 2011).

 A microflora do adulto é um ecossistema complexo que abriga mais de 500 espécies bacterianas diferentes. Acredita-se que o tamanho da população de cada espécie seja rigorosamente controlado pela competição pelos nutrientes e pelo espaço. Esta “resistência à colonização” é uma função da microflora normal. A colonização bacteriana do TGI começa no parto, a partir de bactérias pertencentes à flora materna. Gradualmente o número de bactérias eleva-se, podendo algumas vezes aumentar rapidamente e provocar infecções neonatais (ADLERBERTH, 1998).

  O trato gastrointestinal representa o maior sítio de exposição do organismo ao meio externo e participa das reações entre microrganismos presentes na luz intestinal e o hospedeiro. A adequada manutenção da integridade epitelial exerce papel fundamental contra a patogenicidade exercida por bactérias, toxinas e outras moléculas que podem funcionar como antígenos (TRAVIS; MENZIES, 1992). O trato digestório apresenta outras linhas de defesa, além da barreira exercida pelo intestino, como a ação exercida pelo suco gástrico ácido e pelas enzimas pancreáticas, IgA, defensinas, além da resposta imunológica (SARKER; GYR, 1992; BENVIS; MARTIN-POWER; GANZ, 1999).

 

PERMEABILIDADE INTESTINAL E ROTAS DE PERMEAÇÃO

 A permeabilidade intestinal se refere à função de barreira exercida pelo epitélio intestinal, capaz de permitir ou não a passagem de moléculas por mecanismos de difusão não mediada, por diferenças de gradiente de concentração ou pressão, sem a assistência de um sistema carreador bioquímico passivo ou ativo. Essa função pode ser considerada dinâmica, com alterações transitórias reversíveis após estresse hiperosmolar e também afetada por doenças, hormônios, drogas, dieta, citocinas e fatores ambientais. Essas alterações podem provocar maior permeação de antígenos à mucosa intestinal, iniciando ou prolongando processos inflamatórios locais (TRAVIS; MENZIES, 1992).

  O epitélio intestinal é sustentado por uma estrutura denominada citoesqueleto, que se estende através das porções látero-apicais das células e forma as junções firmes ou zônulas ocludentes. Essas junções representam uma interrupção natural à continuidade da membrana celular, tornando-se uma via de acesso de macromoléculas e permitindo ou não a passagem bidirecional de várias substâncias, como as células inflamatórias (DeMEO et al., 2002).

 Duas rotas de permeação de substâncias pela mucosa do intestino são aceitas atualmente: transcelular e paracelular. Na rota transcelular, as moléculas menores que 0,4nm, como o manitol por exemplo, atravessam as membranas celulares através de pequenos poros aquosos (0,4nm a 0,7nm de raio), de alta incidência, presentes na membrana dos enterócitos. Já na rota paracelular, as moléculas maiores que 0,5nm, como lactulose e celobiose, atravessam canais aquosos maiores (6,5nm de raio) existentes nas junções firmes, de baixa incidência e susceptíveis ao estresse hiperosmolar (TRAVIS; MENZIES, 1992). Essa teoria é denominada teoria das duas vias de permeação e está demonstrada na Figura 2.

 Quando se utilizam marcadores com pesos moleculares variados, em diferentes gradientes osmóticos, constata-se a presença tanto de poros eletroneutros maiores (6,5nm), quanto de poros menores (0,7nm), cátio-seletivos, localizados entre as células epiteliais. Esse modelo é conhecido como teoria da via única, também demonstrado na Figura 2, no qual as moléculas maiores passariam apenas pelos poros maiores através da via paracelular, enquanto as menores passariam tanto pelos poros maiores quanto menores, utilizando as vias transcelular e paracelular (DAVIS et al., 1982; PAPPENHEIMER; RENKIN; BORRERO, 1951).

 

FIGURA 2: Desenho esquemático que ilustra a teoria de vias de permeação diferentes e a via única de permeação utilizando as junções firmes (VILELA, 2005).

 

 A permeação a macromoléculas aumenta em processos que causam reação inflamatória na mucosa intestinal, favorecida por afrouxamento nas junções intercelulares, enquanto a permeação dos monossacarídeos retrata a área absortiva intestinal, embora não haja consenso para explicar as vias de permeação (VILELA, 2005).

  A quebra da integridade da barreira intestinal e aumento da permeação aumentada de macromoléculas têm sido associadas a mecanismos etiopatogênicos comuns a várias doenças de caráter inflamatório do trato digestivo, bem como a doenças auto-imunes, como diabetes mellitus e a dermatite atópica (SECONDULFO et al., 2004; ROSENFELDT et al., 2004). Para que a mucosa possa exercer sua função de forma adequada, sua integridade deve ser mantida e o uso de bactérias probióticas vem sendo associado a essa manutenção da integridade do epitélio intestinal.

 

PROBIÓTICOS

  O termo probiótico possui origem grega e foi proposto inicialmente para descrever compostos ou extratos de tecidos capazes de estimular o crescimento microbiano. Os probióticos eram definidos como suplementos alimentares à base de microrganismos vivos, que afetam beneficamente o animal hospedeiro, promovendo o seu balanço microbiano (FULLER, 1989). Entretanto, a definição atualmente aceita internacionalmente é que eles são microrganismos vivos, administrados em quantidades adequadas, que conferem benefícios à saúde do hospedeiro (WHO, 2002; SANDERS, 2003).

Vários microrganismos são usados como probióticos, entre eles bactérias ácido-lácticas, bactérias não ácido-lácticas e leveduras. Bactérias pertencentes aos gêneros Lactobacillus e Bifidobacterium e, em menor escala, Enterococcus faecium, são mais frequentemente empregadas como suplementos probióticos para alimentos, uma vez que têm sido isoladas de todas as porções do trato gastrintestinal do humano saudável. O íleo terminal e o cólon parecem ser, respectivamente, o local de preferência para colonização intestinal dos lactobacilos e bifidobactérias. Dentre as bactérias pertencentes ao gênero Bifidobacterium, destacam-se a B. bifidum, B. breve, B. infantis, B. lactis, B. animalis, B. longum e B. thermophilum. Dentre as bactérias láticas pertencentes ao gênero Lactobacillus, destacam-se a Lb. acidophilus, Lb. helveticus, Lb. casei- subsp. paracasei e subsp. tolerans, Lb. paracasei, Lb. fermentum, Lb. reuteri, Lb. johnsonii, Lb. plantarum, Lb. rhamnosus e Lb. Salivarius (HOLZAPFEL; SCHILLINGER, 2002).

   Para que os probióticos possam atuar satisfatoriamente no organismo, eles devem apresentar algumas características específicas: serem habitantes normais do intestino; reproduzirem-se rapidamente; produzirem substâncias antimicrobianas; resistirem ao tempo entre a fabricação, comercialização e ingestão do produto devendo atingir o intestino ainda vivos na concentração mínima de 106 UFC/mL ou g. Assim, o mecanismo de atuação dos probióticos no organismo se refere principalmente à inibição que estes exercem na colonização do intestino por bactérias patogênicas. Os mecanismos através dos quais os probióticos reduzem as bactérias patogênicas seriam: produção de substâncias bactericidas; disputa por nutrientes; alteração do metabolismo microbiano; estimulação do sistema imunológico a partir da capacidade de adesão à mucosa intestinal (ALVARENGA et al., 2001).

 

Funções dos probióticos

A influência benéfica dos probióticos sobre a microbiota intestinal humana inclui fatores como efeitos antagônicos, competição e efeitos imunológicos, resultando em um aumento da resistência contra patógenos. Assim, a utilização de culturas bacterianas probióticas estimula a multiplicação de bactérias benéficas, em detrimento à proliferação de bactérias potencialmente prejudiciais, reforçando os mecanismos naturais de defesa do hospedeiro (PUUPPONEN-PIMIA et al., 2002). São vários os efeitos benéficos atribuídos aos probióticos, entre os quais se destacam o efeito trópico na mucosa intestinal, hipocolesterolêmico, anticarcinogênico, tratamento e prevenção da diarréia e melhora da digestão da lactose. Os probióticos exercem efeitos inibidores sobre a microflora intestinal patogênica. Também podem existir efeitos indiretos como a estimulação de outros lactobacilos, diferentes dos microrganismos do probiótico administrado. O mecanismo causador destes efeitos inibidores não é bem conhecido, embora estudos sugiram que a concorrência por receptores de aderência no intestino talvez seja uma explicação possível (FULLER, 1989).

 As bactérias patogênicas do tubo digestório possuem sistemas enzimáticos responsáveis pela produção de carcinogênicos. A administração de probióticos pode suprimir a atividade de enzimas como a β-glicosidase e a β-glicoronidase. Também podem provocar diminuição da 7 α-desidroxilase dos ácidos biliares que produzem o ácido desoxicólico, um ácido biliar secundário. Os probióticos também podem atuar na supressão dos sintomas das enfermidades. Embora essa ação de supressão não seja bem descrita, isto pode acontecer através da ação direta sobre o número de agentes patogênicos ou sobre sua atividade, pelo estímulo à imunidade do hospedeiro ou competição pelos receptores de adesão (FULLER, 1989).

Três possíveis mecanismos de atuação são atribuídos aos probióticos, sendo o primeiro deles a supressão do número de células viáveis através da produção de compostos com atividade antimicrobiana, a competição por nutrientes e a competição por sítios de adesão. O segundo desses mecanismos seria a alteração do metabolismo microbiano, através do aumento ou da diminuição da atividade enzimática. O terceiro seria o estímulo da imunidade do hospedeiro, através do aumento dos níveis de anticorpos e o aumento da atividade dos macrófagos. O espectro de atividade dos probióticos pode ser dividido em efeitos nutricionais, fisiológicos e antimicrobianos (FULLER, 1989).

 Os benefícios à saúde do hospedeiro atribuídos à ingestão de culturas probióticas que mais se destacam são: controle da microbiota intestinal; estabilização da microbiota intestinal após o uso de antibióticos; promoção da resistência gastrintestinal à colonização por patógenos; diminuição da população de patógenos através da produção de ácidos acético e lático, de bacteriocinas e de outros compostos antimicrobianos; promoção da digestão da lactose em indivíduos intolerantes à lactose; estimulação do sistema imune; alívio da constipação; aumento da absorção de minerais e produção de vitaminas. Embora ainda não comprovados, outros efeitos atribuídos a essas culturas são a diminuição do risco de câncer de cólon e de doença cardiovascular. É sugerida, também, a diminuição das concentrações plasmáticas de colesterol, efeitos anti-hipertensivos, redução da atividade ulcerativa de Helicobacter pylori, controle da colite induzida por rotavírus e por Clostridium difficile, prevenção de infecções urogenitais, além de efeitos inibitórios sobre a mutagenicidade (KAUR, CHOPRA, SAINI, 2002; TUOHY et al., 2003).

 

PROBIÓTICOS E A PERMEABILIDADE INTESTINAL

  Durante muitos anos, os mecanismos propostos para explicar os efeitos benéficos dos microrganismos probióticos estavam concentrados na sua capacidade de suprimir o crescimento de patógenos. De fato, essa competição entre probióticos e bactérias patogênicas por sítios específicos no epitélio intestinal constituía-se no seu principal mecanismo de ação (CLANCY, 2003). 

 Algumas hipóteses são formuladas para explicar possíveis mecanismos pelos quais as bactérias probióticas podem interferir na barreira intestinal. Uma delas está relacionada às camadas de muco. Ao longo de todo o epitélio intestinal existem inúmeras células de Goblet (células caliciformes). Essas células são glandulares polarizadas do tipo mucoso, pois secretam mucina, que se dissolve na água formando muco. Essa camada de muco fornece proteção contra antígenos e moléculas estranhas, ao mesmo tempo que atua como lubrificante para a motilidade intestinal. O muco é a primeira barreira que as bactérias intestinal encontram, e os patógenos precisam penetrá-la durante uma infecção para atingir as células epiteliais (PHILLIPSON et al., 2008). Alguns microrganismos, como Helicobacter pylori, Candida albicans e Entamoeba histolytica, desenvolveram diversos métodos para degradar o muco (BRADSHAW et al., 1994; MONCADA et al., 2000).

  Os probióticos podem promover secreção de muco como um dos mecanismos de melhorar a função de barreira e eliminação de patógenos. In vitro, algumas espécies de Lactobacillus aumentaram a expressão de mucina em células humanas intestinais Caco-2 (MUC2) e HT29 (MUC 2 e 3), bloqueando então a invasão e aderência da Escherichia coli patogênica (MACK et al., 2003; MATTAR et al., 2002). In vivo, poucos estudos foram realizados e estes mostraram uma tendência para o aumento da expressão de mucina pelos probióticos, embora haja a necessidade de melhores estudos para que um resultado mais conclusivo possa ser afirmado (OHLAND; MacNAUGHTON, 2010).

 Outro mecanismo que pode explicar a interação entre probióticos e a barreira intestinal correlaciona-se com os peptídeos antimicrobianos das células do hospedeiro. As duas principais famílias desses peptídeos são as defensinas e catelicidinas. A expressão de catelicidina é induzida pelo butirato, produzido pela microflora entérica (SCHAUBER et al., 2003). Rubhana et al. (2006) usou butirato para tratar infecção por Shigella em coelhos e encontrou uma significativa redução na disenteria que foi correlacionada com uma “upregulation” de catelicidina. Baixas produção de defensinas tem sido associada com o desenvolvimento de doença inflamatória intestinal e com o aumento da susceptibilidade a infecções bacterianas (MENENDEZ; BRETT FINLAY, 2007).

 Kadowaki et al. demonstraram que tanto as células epiteliais quanto as células imunológicas possuem a capacidade de discriminar diferentes espécies de microrganismos. Ao nível da barreira mucosa, as células epiteliais expostas ao Streptococcus thermophilus e ao Lactobacillus acidophilus aumentam a fosforilação da actina e da ocludina nas junções firmes, com isso impedem a adesão e a invasão da E. coli enteroinvasiva (KADOWAKI et al., 2001; RESTA-LENERT; BARRETT, 2003).

 Segundo Lammers et al (2002), as células epiteliais secretam interleucina-8 em resposta a bactérias como a E. coli, mas não o fazem na presença dos probióticos.

  Probióticos podem inibir o crescimento ou matar patógenos pela produção de moléculas antimicrobianas incluindo ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) e bacteriocinas ou microcinas (COLLINS; BERCIK, 2009). Estudos mostraram que tanto Lactobacillus quanto Bifidobacterium podem matar Salmonella typhimurium in vitro (FAYOL-MESSAOUDI et al., 2005). As bactérias probióticas podem abaixar o pH luminal através da secreção de ácidos acético e lático, o que inibe o crescimento de alguns patógenos, incluindo a E. coli enterohemorrágica (OGAWA et al., 2001). A produção de AGCC pode provocar rompimentos das membranas de patógenos gram-negativos, inibindo o crescimento (ALAKOMI et al., 2000). Lactobacillus salivarius produz um peptídeo que inibe o crescimento de espécies de Staphylococcus, Bacillus, Listeria e Enterococcus (FLYNN et al., 2002).

  Essas bactérias probióticas também podem contribuir para a função de barreira intestinal competindo com patógenos invasores por sítios de ligação nas células epiteliais e na camada mucosa sobrejacente (BARTON; KAGAN, 2009). Também podem inibir a diminuição da resistência e alterações nas junções apertadas (tight) causadas por estresse, infecção ou citocinas inflamatórias em doenças inflamatórias intestinais (RESTA-LENERT; BARRETT, 2006; MUMY et al., 2008; MADSEN et al., 2001; EWASCHUK et al., 2008) . Além disso, os probióticos aumentam os níveis totais de IgA secretória (IgAs) além dos níveis patógenos-especifícos nas infecções, enquanto normalmente não induz a produção de IgAs probiótico-específico (GALDEANO; PERDIGON, 2006).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

  As funções dos probióticos e suas interações com o organismo humano vêm recebendo grande destaque nos estudos científicos recentes. A cada dia novas interações são descobertas e descritas. As informações geradas ao longo dos últimos anos indicam que vários probióticos têm diversas participações na saúde humana, além de sua atividade como promotores de crescimento e reguladores da microbiota das mucosas. As evidências acumuladas sobre os benefícios decorrentes do uso dos probióticos para melhoria da função de barreira intestinal e controle da permeabilidade intestinal justificam o aprofundamento dos estudos sobre seu modo de ação, a fim de esclarecer melhor os mecanismos pelos quais as bactérias probióticas contribuem para o controle da permeabilidade.

  

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NOTAS DE FIM

1 Graduado em Nutrição pelo Centro Universitário Newton Paiva. Mestrando em Saúde do Adulto na Faculdade de Medicina da UFMG. Pós-graduado em Treinamento Desportivo pela FACEL (PR) e pós-graduando em Nutrição Clínica Funcional pela UNICSUL / VP (SP).