25 de setembro de 2022
Colunas Engenheirando

Engenheiro não sabe/sabia se comunicar!

Engenheiro não sabe escrever! Engenheiro não sabe se comunicar! Ao longo dos quase vinte anos de profissão, foram inúmeras as vezes que ouvi estas expressões de profissionais de outras áreas, ou até mesmo de colegas da engenharia. Pesaroso devo admitir que, com algumas exceções naturalmente, as afirmativas genéricas acima servem muito bem de carapuça para a maioria dos colegas engenheiros. E também admito que não fujo à regra. A tarefa de me comunicar através da escrita não é algo simples nem trivial para mim (e ainda assim, tive o atrevimento de aceitar o convite para escrever uma coluna neste blog).

A comunicação assertiva é uma das chamadas soft skills, que em tradução livre, seriam as habilidades comportamentais de uma pessoa. Ou seja, aquele tipo de competência que normalmente não vêm descrita nem comprovada por meio de um diploma ou certificado. São capacidades tais como liderança, poder de persuasão, resolução de conflitos, criatividade, trabalho em equipe, dentre várias outras. Mas se engana quem pensa que estas competências não podem ser obtidas por meio de cursos formais. Claro que podem! Existe uma infinidade de opções de cursos que ensinam desde estratégias de persuasão, oratória, técnicas de estímulo à criatividade e claro, a redação. Mas como qualquer outra habilidade, só se é desenvolvida e aprimorada por meio da prática contínua. Não há outra maneira nem fórmula mágica.

Não é de hoje que percebo o valor destas competências na vida profissional das pessoas. São muitos os casos de amigos de faculdade ou colegas de empresa que se destacaram no mercado de trabalho pois conseguiram desenvolver com excelência muitas destas habilidades comportamentais. Muitos assumiram altos cargos em grandes multinacionais, montaram negócios promissores e alcançaram posição de destaque em diversas áreas de atuação, mesmo sem terem elevadas competências técnicas, mas fazendo bom uso das suas habilidades sociocomportamentais.

Um jargão comum entre os profissionais de recursos humanos: “Contrata-se pela competência técnica e se demite pela comportamental”, acabou sendo confirmado em levantamento feito pela Page Personnel, uma consultoria global de recrutamento para cargos de nível técnico e suporte à gestão. Segundo a pesquisa realizada pela consultoria e apresentada pelo portal G1 de notícias, 90% dos colaboradores são desligados das empresas por conduta inesperada ou inapropriada. Segundo o gerente da Page Personnel, Renato Trindade: “Há muitos profissionais qualificados tecnicamente, com um currículo repleto de bons cursos e atividades complementares, mas tanto repertório não é suficiente para conquistar uma boa vaga. O profissional precisa ter uma forte inteligência emocional e buscar novas habilidades, como trabalhar em equipe, respeito ao próximo, inspirar e desenvolver pessoas”.

Se o aprimoramento das soft skills já era um enorme desafio a ser enfrentado pela maioria das pessoas, a pandemia do Covid-19 elevou ainda mais o nível de dificuldade para aqueles que possuem pretensão de crescimento na carreira. O distanciamento social tem exigido muito jogo de cintura dos profissionais no momento de colocar em prática todas estas habilidades comportamentais no ambiente de trabalho remoto. Afinal, como desenvolver uma boa oratória diante de uma tela de computador onde só se enxergam caixinhas, muitas vezes com as câmeras desligadas? Como persuadir um colega a apoiar seu projeto, sem um aperto de mão, ou uma conversa olho no olho? Como liderar uma equipe à distância? Como estabelecer ou manter um bom relacionamento interpessoal, sem aquela pausa para um bate papo no cafezinho? É diante de problemas complexos como estes, dentro de uma nova realidade (que muitos estudiosos dizem que veio para ficar), que nós engenheiros fomos colocados novamente à prova para encontrarmos a melhor solução.

Estes primeiros meses de distanciamento forçaram o uso de outras formas de comunicação, antes restritas a alguns ramos de atividade, que agora se tornaram bastante populares. Fomos direcionados a realizar lives, webinários, gravar podcasts e vídeos no YouTube, além de exercitar nosso talento para uma escrita ao mesmo tempo sucinta e compreensível nas mensagens do WhatsApp ou postagens nas redes sociais. Até o bom e velho e-mail, já quase em desuso, foi reavivado. E fomos surpreendidos com a capacidade de comunicação de colegas engenheiros e estudantes de engenharia, utilizando estes novos formatos tecnológicos. Propostas, projetos, relatórios e pesquisas foram apresentados de forma muito criativa e eficiente, revelando talentos até então desconhecidos.

Muitas outras formas de comunicação, utilizando novas tecnologias, ainda irão surgir num futuro bem próximo. E talvez seja esta a chance de nós engenheiros acabarmos com este estigma que nos persegue, de não sabermos nos comunicar. Afinal, desenvolver e utilizar a tecnologia ao nosso favor, na solução de problemas complexos em cenários adversos, é a função diária do engenheiro.