25 de setembro de 2022
Cultura Notícias Saúde

Tabu “homem não chora” impacta na alta taxa de suicídio masculino

Por Fernanda Nazaré 

“Menino não pode chorar”, “aaah que feio, menino não chora…” Sim, essas frases são ditas para garotos desde a infância, logo após a fase em que chorar deixa de ser um mecanismo de sobrevivência. Bebês choram para demonstrar fome, sono, irritação, quando querem trocar a fralda ou em caso de alguma outra necessidade fisiológica e emocional. Mas, por que depois que aprendem a falar, meninos são desencorajados a demonstrarem algo que “veio de fábrica” como um mecanismo natural do ser humano? Talvez por machismo?  

Estamos em pleno ano de 2021, o que pode soar “antiquado” e coisa da geração dos nossos avós dizer isso para crianças. Adivinha? A geração que era criança na época dos seus avós, hoje são adultos e pais. Provavelmente um pai como o meu ou o seu. Tá passado (a)? Por isso essas frases do início do texto estão presentes até hoje… O machismo estrutural se passa de geração em geração, quase inconscientemente. O impacto disso está na maior taxa de suicídio entre homens do que mulheres, as tidas como “sexo frágil” – outra premissa machista e errônea, não é mesmo?  

Homem não chora, mas se mata 

No Brasil, por exemplo, a OMS (Organização Mundial da Saúde) aponta que a taxa entre os homens pode ser três vezes maior que entre as mulheres, dependendo da região, e chega a 75% dos casos. 

O dado é alarmante, mas ainda bem que outra pesquisa aponta que os homens estão se abrindo mais à psicoterapia e isso está relacionado, entre outros fatores, ao acesso à informação sobre o que é um acompanhamento psicológico. 

Segundo relatório da Pesquisa Nacional de Saúde 2019, 69,4% dos homens passaram por consulta terapêutica no ano de 2018, enquanto esse número é de 82,3% entre as mulheres —sendo que, dessas pessoas, 79,4% são brancas.  

Não pense que, porque os dados são nacionais, essa cultura machista não prejudica os homens em outras partes do planeta. Em 2016, uma campanha na Austrália, lá na Oceania, viralizou na internet ao encorajar homens a chorarem, a demonstrarem sentimentos que foram reprimidos e julgados como “fraqueza” desde a infância.  

Ressignificando  

Da mesma maneira em que o machismo tem a premissa de que “homem que é homem não chora”, um discurso prejudicial à saúde mental que foi naturalizado pela sociedade como “nada demais”, os criadores da campanha “Man Up”, na Austrália, ressignificaram o sentindo de “homem que é homem”. Traduzindo a expressão “Man up”, o título da campanha, para o português, seria algo como “Vire homem”, “Seja macho”. 

Assim como esse termo é usado como encorajamento para homem engolir o choro e adotar uma postura (falsa) de que é forte, a campanha mostra que precisa de muita coragem para enfrentar esse tabu, o machismo ainda vivo na sociedade em todo o mundo. O intuito é precaver o suicídio entre homens. “Seja homem. Fale”.  

Assista ao comercial. A tradução do vídeo está abaixo.  

“Antes de falar, nós choramos. É como sobrevivemos. Então, por que dizemos aos garotos para pararem de chorar? Para ficarem firmes. Para “crescer”. Bem, f*da-se! Se você se sente para baixo, fale! Porque o silêncio pode matar. É preciso coragem para mostrar dor. É preciso ser homem para sentir. É preciso ter culhões para chorar.  

Vire homem. 

Fale.” 

Escrito e autorizado pela sua mãe, seu pai e todo amigo que você já teve. 

Sua esposa, seu filho, sua filha, seu irmão, sua irmã, todos sentirão sua falta. 

Sua namorada, seu namorado, a garota da padaria, vizinhos de perto e de longe. 

Sua professora, seu cachorro, seu barbeiro, seu chefe, eles vão lamentar a sua perda. 

Essas singelas palavras são para você, com amor daquela que você deixará para trás.  

Você se interessa pela psique humana ou já tem graduação em psicologia e quer se aprofundar? A Newton oferece Especialização em Psicologia Comportamental e Pós-graduação em Psicanálise, Psicopatologia e Políticas de Saúde Mental. Clique nos nomes e confira! 

0 0 votes
Article Rating
Subscribe
Notify of
guest

0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments